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BRASIL

Unicef pede ações integradas para proteger infância Yanomami

A invasão garimpeira na terra Yanomami trouxe impactos devastadores para as crianças e adolescentes desta comunidade indígena, conforme aponta um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), apresentado em parceria com a Hutukara Associa

15/10/2025

15/10/2025

A invasão garimpeira na terra Yanomami trouxe impactos devastadores para as crianças e adolescentes desta comunidade indígena, conforme aponta um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), apresentado em parceria com a Hutukara Associação Yanomami (HAY). Entre 2019 e 2022, a atividade ilegal se intensificou e, infelizmente, mais de 570 crianças perderam a vida, vítimas de doenças evitáveis e tratáveis, como desnutrição, malária, pneumonia e infestações parasitárias.

Yanomami Children

A atividade ilegal dos garimpeiros provocou diversos problemas socioambientais, contaminando os rios com mercúrio e desrespeitando os territórios indígenas. Essa invasão também afetou a caça, a coleta e a agricultura local. Durante esse período, o sistema de saúde na região foi desestruturado, deixando a população desassistida. Composta por cerca de 31 mil pessoas, a população Yanomami habita a maior terra indígena do Brasil, com 390 comunidades distribuídas por 9,6 milhões de hectares nos estados de Roraima e Amazonas.

Qual foi o impacto da emergência sanitária em 2023?

Em resposta à gravidade da situação, o Governo Federal declarou Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional no território em 2023. Foram realizadas mais de 7,4 mil ações integradas de combate ao garimpo e o número de profissionais de saúde na região foi triplicado. Unidades de atendimento foram reabertas ou inauguradas. Apesar dos esforços, "os desafios permanecem", conforme alerta o relatório, que vem às vésperas da COP 30 em Belém do Pará, com foco maior na Amazônia.

Como o garimpo afeta a saúde das crianças Yanomami?

"É um ciclo de adoecimento muito crônico e sistêmico, muito ligado à invasão garimpeira. Primeiro, como diz um amigo Yanomami, onde tem garimpo, tem malária... Isso leva também à fome e à desnutrição que se agrava porque tem maior destruição da floresta, porque o barulho do maquinário afugenta as caças..." acrescenta a antropóloga Ana Maria Machado, uma das autoras do relatório.

Dados de 2022 revelam que, entre as 4.245 crianças Yanomami acompanhadas pelo serviço de Vigilância Alimentar e Nutricional, mais da metade (2.402) estavam abaixo do peso devido à desnutrição. Casos de malária entre crianças de até cinco anos superaram 21 mil entre 2019 e 2022, um número alarmante comparado à década anterior. Em apenas quatro anos, 47 crianças morreram pela doença, quase sete vezes mais do que nos quatro anos anteriores.

As doenças respiratórias, responsáveis por 187 óbitos infantis entre 2018 e 2022, são outro fator significativo. Síndromes gripais simples se agravam devido à baixa imunidade, intensificada pelo contato crescente com garimpeiros e circulações externas. A cobertura vacinal, crucial para prevenção, caiu de 82% em 2018 para 53% em 2022.

O que o mercúrio nos rios representa para o povo Yanomami?

O garimpo também deixou uma marca permanente nos cursos d'água através da contaminação por mercúrio, usado para separar ouro. Embora proibido no Brasil, o mercúrio está presente em níveis preocupantes. Em 2022, amostras dos rios Uraricoera, Parima, Catrimani e Mucajaí apresentaram teores de mercúrio 8.600% acima do aceitável para consumo humano.

Mesmo que a retirada dos garimpos tenha trazido melhorias, "a presença incolor do mercúrio nos rios e nos peixes seguirá sendo fonte de contaminação por vários anos". O mercúrio prejudica o sistema nervoso central, podendo causar má formação fetal em crianças e problemas motores e neurológicos em bebês.

Como proteger o modo de vida Yanomami?

O relatório destaca a necessidade urgente de proteger o território Yanomami contra o garimpo e atividades que ameacem sua cultura. Três em cada quatro Yanomami são crianças, adolescentes ou jovens, e a diversidade dentro dessa faixa etária é grande, com seis línguas diferentes, por exemplo.

Embora os dados sejam alarmantes, o relatório aponta que "não se reduz a privações e desafios", mas também envolve "liberdade, autonomia e participação comunitária". Crianças Yanomami crescem em comunidade, aprendendo através das tradições enquanto participam ativamente da vida coletiva, um contraste à concepção ocidental de infância.

"Os Yanomami têm uma ideia de que crescer em comunidade é uma forma de cuidar bem da criança, então há uma rede de cuidado mais densa do que vemos no mundo ocidental...", explica Ana Maria Machado.

Uma proteção eficaz deve assegurar água limpa, educação, assistência de saúde de qualidade e segurança, garantindo que possam crescer e prosperar em um ambiente livre de invasores. O documento, elaborado pelo UNICEF e a Hutukara Associação Yanomami, recomenda que os desejos e necessidades dos jovens Yanomami em relação à educação e novas tecnologias sejam respeitados e levados a sério.



Com informações da Agência Brasil

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