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BRASIL

Fronteira Cerrado: ativistas querem bioma "igualado" à Amazônia

O Cerrado, muitas vezes esquecido no cenário ambiental, encontra-se em destaque enquanto o mundo foca na 30ª Conferência da ONU para Mudanças Climáticas (COP30) em Belém. Conhecido como o “berço das águas”, esse bioma é crucial devido à sua contribuição p

04/11/2025

04/11/2025

O Cerrado, muitas vezes esquecido no cenário ambiental, encontra-se em destaque enquanto o mundo foca na 30ª Conferência da ONU para Mudanças Climáticas (COP30) em Belém. Conhecido como o “berço das águas”, esse bioma é crucial devido à sua contribuição para oito das doze grandes bacias hidrográficas do Brasil. Cientistas e ambientalistas pedem maior reconhecimento político para o Cerrado, tratando-o com a mesma importância da Amazônia, especialmente considerando que 40% da água potável nacional origina-se daqui.

A questão do desmatamento, acelerada pelo avanço do agronegócio, ameaça profundamente o potencial hídrico do Cerrado. Estimativas sugerem que o bioma perdeu cerca de 27% da vazão mínima em suas principais bacias desde a década de 1970. Este dado alarmante é ainda mais significativo quando pensamos que o Cerrado tem capacidade para armazenar grandes volumes de água, vitais para combater as mudanças do clima.

Por que o Cerrado é crucial na luta contra a crise hídrica?

O Cerrado sustenta setores como a agricultura irrigada do Brasil, responsável por 50% da água captada. O geólogo Yuri Salmona prevê que, até 2050, o Cerrado poderá perder mais um terço de suas águas, resultando em um ambiente mais seco e possíveis conflitos por recursos hídricos. Basta olhar para a matriz energética nacional, baseada em hidrelétricas, para entender o impacto que a falta de água teria.

“Podemos esperar um ambiente mais seco, com mais escassez e mais conflitos por água”, alerta Salmona, destacando a consequência iminente dessa perda de recursos hídricos.

O que o governo está fazendo para salvar o Cerrado?

O governo federal reconhece a gravidade do problema, mas ainda não revisou o Código Florestal para oferecer maior proteção ao bioma. Iara Bueno Giacomini, do Ministério do Meio Ambiente, sugere que iniciativas como a regulamentação de Áreas Prioritárias para Conservação de Águas do Cerrado podem ajudar a criar novas categorias de preservação.

“A gente não atingiu ainda um ponto de não retorno no Cerrado, ainda bem”, reconhece Iara, apelando para uma maior conscientização do agronegócio sobre a necessidade de proteção.

Além disso, o governo está investindo em projetos de recuperação de áreas degradadas e em incentivos fiscais para produtores que conservam recursos naturais além dos requisitos legais. Contudo, as decisões específicas de desmatamento ficam a cargo dos governos estaduais, o que, segundo Isabel Figueiredo do Programa Cerrado do ISPN, limita as ações do governo federal.

Qual a posição do agronegócio sobre a crise no Cerrado?

Apesar de procuradas, as grandes entidades do agronegócio, como a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária e a Aprosoja, não se manifestaram diretamente sobre os estudos denunciados. A Frente Parlamentar Agropecuária joga a responsabilidade de proteção do Cerrado no colo do Poder Executivo, em vez de adotar uma postura proativa junto aos produtores.

“Quem vai mudar o cenário são os governos estaduais”, critica Isabel Figueiredo, do ISPN, sobre a atual postura permissiva ao desmatamento.

É uma corrida contra o tempo para evitar que o Brasil alcance um ponto de não-retorno, em que a reversão dos danos ao Cerrado se torna impossível. Resta, portanto, intensificar os esforços para que o bioma não seja apenas o “berço das águas”, mas também o pivô de um futuro sustentável.

*Produção de Beatriz Evaristo, com sonoplastia de Jailton Sodré

**Esta série foi possível com apoio da Seleção de Reportagens Nádia Franco, iniciativa da Empresa Brasil de Comunicação (EBC)

***O ISPN financiou as passagens da equipe até Imperatriz (MA)



Com informações da Agência Brasil

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