No coração do Cerrado, povos e comunidades tradicionais enfrentam uma batalha silenciosa. Eles, que sempre foram vistos como os guardiões de um dos biomas mais ricos do mundo, agora têm suas vidas transformadas por conflitos agrários. Essa realidade é especialmente crítica no Vão do Uruçu, a cerca de 300 quilômetros de Balsas, onde mais de 20 famílias estão sob pressão para deixar suas terras. Como isso aconteceu e por que essa situação é tão intensa?
Nesse cenário, Balsas desponta como um dos epicentros do agronegócio no Brasil. A região, marcada pelo crescimento incessante da fronteira agrícola, abriga relatos de posseiros que se veem acuados pelas forças do desenvolvimento. Osmar Paulo da Silva Santos, um morador de 65 anos, compartilha seus receios: "Ave Maria, foi o desassossego maior que nós já tivemos. Antes desse povo chegar por aqui, nós todos vivíamos sossegados." Uma sensação de insegurança permeia a vida desses agricultores, que relatam ouvir tiros ao redor de suas casas.
Quem ameaça as terras no Vão do Uruçu?
Os temidos "grileiros", acusados pelos habitantes locais, estariam por trás da tentativa de se apossar de terras históricas para a expansão da soja. Família após família, relatos crescem sobre propostas de acordos que visam a redução das áreas agrícolas a 50 hectares, ou a completa evacuação das terras. Para os moradores, essa é uma forma disfarçada de expulsão.
Na mira dos conflitos: o Maranhão
Jorge Moreno, juiz aposentado e coordenador do Comitê de Solidariedade à Luta pela Terra do Maranhão, reforça a gravidade da situação no estado. Ele observa que "não existe um município do Maranhão, dos 217, que não esteja sofrendo algum tipo de violência". De acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Maranhão é o campeão nacional em conflitos agrários, com 420 casos registrados no último ano.
Como o governo está reagindo?
Com o objetivo de amenizar os conflitos, o governo estadual lançou o Programa Paz no Campo. Conforme explica Anderson Pires Ferreira, presidente do Instituto de Colonização e Terras do Maranhão, mais de 18 mil títulos de propriedade foram entregues e 27 comunidades quilombolas foram regularizadas. "Porque só existe uma forma de pacificar o campo, a zona rural: é regularizando", afirma Ferreira.
O caminho para a paz é a regularização?
Com a agropecuária invadindo novas fronteiras, os desafios de regularização fundiária se tornam mais urgentes. O Instituto de Terras do Maranhão já registrou 300 mil hectares de terras devolutas, além de retomar 150 mil hectares de terras griladas. No entanto, o progresso ainda esbarra em antigos entraves de posses não geolocalizadas, um problema que o governo tenta driblar enquanto expande o alcance do agronegócio.
Ouça e baixe as outras reportagens da série Fronteira Cerrado:
*Com produção de Beatriz Evaristo e sonoplastia de Jailton Sodré
**A produção dessa série foi viabilizada a partir da Seleção de Reportagens Nádia Franco, iniciativa da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) que destinou R$ 200 mil para o custeio de conteúdos especiais produzidos por jornalistas da empresa.
***O Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN) custeou as passagens aéreas da equipe até Imperatriz (MA).
Com informações da Agência Brasil