
Em novembro de 2015, o rompimento da barragem em Mariana, Minas Gerais, marcou a vida de muitos brasileiros, especialmente de moradores da cidade de Governador Valadares, no Vale do Rio Doce. Essa tragédia não apenas destruiu cidades e impactou famílias, mas também poluiu rios, levando devastação ambiental e social. Para narrar a profundidade desses eventos, o quadrinista João Marcos Mendonça lançou o álbum Doce Amargo, uma graphic novel que mistura reportagem com arte em 186 páginas. E você, já parou para pensar no impacto social e ambiental de uma tragédia dessas proporções?
Doce Amargo é uma janela íntima para a vida após o desastre. Instigante e detalhista, a obra de João se assemelha a um documentário em quadrinhos, explorando as dificuldades enfrentadas pelos valadarenses. Localizada a 328 quilômetros de Mariana, Governador Valadares depende do Rio Doce para seu abastecimento. Entretanto, dias após o rompimento, a lama tóxica da barragem percorreu toda a extensão do rio, transformando-o num condutor de caos.
O que motivou João Mendonça a criar Doce Amargo?
Antes da tragédia, Valadares já lidava com a escassez de água devido a um longo período de seca. Visando relatar essa experiência desafiadora, João e sua família tornaram-se personagens centrais em Doce Amargo. Ele registrou meticulosamente os eventos à medida que eles se desenrolavam, provendo uma visão pessoal e crua dos desafios do dia a dia após a chegada da lama.
“Nós estávamos vivendo algo histórico, por isso comecei a fazer um diário”, relata João. “O que me despertou para aquilo foi uma cena do caminhão do Exército distribuindo água. Foi um cenário de guerra.”
Como a HQ retrata a realidade dos valadarenses?
Através de rascunhos rápidos e diretos, com inspirações notáveis do artista Ziraldo, a graphic novel proporciona uma leitura dinâmica e acessível, perfeitamente adequada para jovens adultos. João preza por explicar claramente como os valadarenses enfrentaram a falta de água, conviveram com o cheiro da morte dos peixes e lidaram com a dura realidade de não ter água nem para necessidades básicas, como tomar banho ou dar descarga.
“Fiz o registro para contar o que eu estava vivendo. Quis mostrar o que não tinha nas TVs e na mídia”, revela João. Para o autor, um desastre desse nível “mostra números, cifras e queria deixar registrada a noção humana da tragédia. Era quase um apocalipse.”
Quais aprendizados emergem de Doce Amargo?
Ao desbravar Doce Amargo, somos convidados a refletir profundamente sobre o impacto das ações humanas no meio ambiente e na sociedade. A degradação do Rio Doce trouxe sérias consequências, expondo valadarenses a novos desafios sociais e ambientais. O álbum serve como um registro didático do primeiro ano pós-desastre, construído ao longo de nove anos de trabalho dedicado.
“Foi difícil [fazer este álbum]. Difícil reviver tudo aquilo para fazer a HQ. Levei nove anos para finalizar o roteiro. Aconteceram muitas coisas e não daria para colocar tudo, então fiz um recorte do primeiro ano da crise. Quis dar uma ideia de como foi o primeiro ano”, conta João.
O álbum não apenas documenta, mas também preserva a história e resiliência dos valadarenses, apresentando tudo isso de forma clara e emocionante, como se assistíssemos a uma reportagem ao vivo. Quer saber mais sobre essa obra impactante? Talvez seja hora de descobrir Doce Amargo por si próprio.
Com informações da Agência Brasil