Você já parou para pensar na igualdade de gênero em relação aos nomes das ruas de sua cidade? Em São Paulo, por exemplo, a disparidade é surpreendente: dos 44 mil logradouros nomeados, apenas 16% têm nomes femininos. Para cada Rua Augusta, existem cinco vias chamadas João. A escolha dos nomes das ruas não é apenas uma questão de referência geográfica, mas também de visibilidade histórica, um reflexo de quem é lembrado nas narrativas de nossas cidades.
Decifrar essa desigualdade é como abrir um livro de história que nunca lemos completamente. A antropóloga e historiadora Paula Janovitch destaca que, historicamente, os nomes masculinos dominavam o espaço público, relegando às mulheres apenas o espaço privado. Eles eram os doutores; elas, quando muito, as "donas": donas de casa, de propriedades, de chácaras.
Quem são as mulheres homenageadas nas ruas de São Paulo?
Para encontrar nomes femininos em ruas de São Paulo, você não precisa ir além do famoso bairro de Higienópolis. Por lá, há ruas que furaram a bolha patriarcal, batizadas em homenagem a mulheres da elite, como Angélica, Veridiana e Maria Antônia. Porém, essas são exceções. Paula Janovitch lembra no livro “Cotidiano e Poder em São Paulo no Século XIX” como tantos outros nomes de mulheres ativas na sociedade foram apagados das ruas e da história. Calçadas que um dia homenagearam Josefa, Inês Vieira ou Catarina Dias agora têm outros nomes, esquecendo suas contribuições à urbanização.
O que fazer com ruas que homenageiam feminicidas?
Reflectir sobre quem é homenageado nas vias públicas leva a questões éticas. Um projeto de lei em São Paulo busca vetar as homenagens a feminicidas. Um exemplo emblemático é a Rua Maria Isabel, renomeada como Peixoto Gomide, em referência a um político assassino de sua própria filha. Este projeto, com apoio de personagens como a historiadora Maíra Rosin, busca recuperar a dignidade dessas mulheres esquecidas, espelhando esforços semelhantes para renomear ruas de escravagistas e ditadores.
Pensar em renomear uma rua também é um ato de resistência contra a validação da violência. A proposta de se devolver o nome original a ruas associadas a crimes contra mulheres está em tramitação, já aprovada em um primeiro turno da câmara municipal, aguardando nova votação.
Como pesquisar nomes de logradouros de sua cidade?
Deseja descobrir a história por trás do nome da sua rua? Em São Paulo, você pode consultar o Dicionário de Ruas do Arquivo Histórico Municipal, uma iniciativa que remonta aos anos 1930 e que foi modernizada por Mário de Andrade para facilitar essas consultas. Entre as descobertas que você pode fazer está a Rua Maria Paula, que homenageia uma avó aristocrata desde 1894, ou a Rua Carolina Maria de Jesus, que desde 1978 homenageia uma escritora e catadora de papel.
Essa busca por igualdade de gênero não é só sobre política ou economia; é também sobre resgatar e enaltecer a memória e as histórias das mulheres que pavimentaram nossas cidades – para que, de Marias a Joanas, todas permaneçam vivas em nossa história coletiva.
*Com produção de Bel Pereira e sonoplastia de Jailton Sodré
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Com informações da Agência Brasil