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Sob facções e operações, população de favelas vive traumas e adoece

Invisible Bomb: The Hidden Impact of Police OperationsImagine conviver com uma bomba invisível, que explode não só ao seu redor, mas dentro de você. Foi assim que José Claudio Sousa Alves, professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Fede

01/11/2025

01/11/2025

Invisible Bomb: The Hidden Impact of Police Operations

Imagine conviver com uma bomba invisível, que explode não só ao seu redor, mas dentro de você. Foi assim que José Claudio Sousa Alves, professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), descreveu os efeitos devastadores de operações como a Operação Contenção. Realizada nos complexos do Alemão e da Penha na zona norte da cidade, essa megaoperação policial é considerada a mais letal dos últimos anos no Rio. Ao menos 121 pessoas perderam a vida, e os impactos vão muito além dos números frios, como você descobrirá.

Na última terça-feira, o cenário era de caos. Para além do medo provocado pelos tiroteios, o cotidiano foi paralisado: comércios fechados, escolas sem atividade, postos de saúde inoperantes, principais vias interditadas e ônibus incendiados. A cena na rua era desoladora: corpos estendidos, rodeados de uma comunidade em choque e sofrimento. Esse desespero contínuo semeia uma série de problemas de saúde mental e física, alertou Alves, ressaltando que moradores de áreas intensamente afetadas por operações policiais enfrentam riscos elevados de doenças como a depressão, hipertensão e insônia.

O que diz a pesquisa sobre os impactos dos confrontos?

Um estudo empreendido pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec) ilustra bem essa realidade. A pesquisa comparou as condições de saúde em comunidades mais afetadas por tiroteios com áreas relativamente tranquilas. Os dados são alarmantes: moradores expostos frequentemente a tiroteios têm mais do que o dobro de chances de sofrer de depressão e ansiedade. As chances de insônia são 73% superiores e a hipertensão, 42%. Sudorese, falta de sono, tremores e falta de ar são sintomas comuns nos moradores durante esses conflitos.

Quem são as vozes que ecoam o desespero das favelas?

Protestos também são uma expressão desses sentimentos. No Complexo da Penha, manifestantes como Raimunda de Jesus levantaram suas vozes contra a violência do Estado. “A forma que aconteceu aqui não acontece na Zona Sul, mas lá também tem bandidos. Somos discriminados e o Estado não pode nos ver como inimigos, mas como parte de sua população”, desabafou. Entre aquelas vozes, destacava-se a de Liliane Santos Rodrigues, uma mãe em luto pela perda de seu filho adolescente há apenas seis meses. Ela sente profundamente a dor de outras mães que se encontram em igual situação.

Sob facções e operações, população de favelas vive traumas e adoece
Dezenas de corpos são trazidos por moradores para a Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio de Janeiro. Operação Contenção. Foto: Tomaz Silva /Agência Brasil

Complexos da Penha e do Alemão: base do Comando Vermelho?

As operações policiais visam desarticular o que é considerado o quartel-general do Comando Vermelho, mas, para pesquisadores como Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF), o impacto maior é sobre a população civil. Os complexos do Alemão e da Penha abrigam mais de 110 mil pessoas que vivem na constante sombra de operações como essa, cuja eficácia na desestruturação das facções é contestada pelos estudiosos.

Carolina Grillo aponta que, apesar de ser uma base para lideranças do tráfico, muitos desses chefes estão presos e controlam operações à distância. A estrutura do Comando Vermelho, muitas vezes, se mantém mesmo após operações, enquanto as comunidades enfrentam traumas profundos.

Como o Comando Vermelho evoluiu?

Surgido no contexto carcerário dos anos 1970, o Comando Vermelho expandiu de roubos a bancos para o narcotráfico em uma escala vasta, como explicou José Claudio Sousa Alves. Um estudo recente mostra que a facção dominou 51,9% das áreas criminosas do Grande Rio, superando as milícias locais. Sua extensão aos territórios vulneráveis, alimentada por desigualdades sociais e falta de oportunidades para os jovens, continua crescendo.

Imagens do Impacto

Sob facções e operações, população de favelas vive traumas e adoece
Atendimento aos familiares durante o reconhecimento dos corpos dos mortos na Operação Contenção no Instituto Médico Legal. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Sob facções e operações, população de favelas vive traumas e adoece
Crianças brincam em praça da Vila Cruzeiro ao lado de barricadas que foram colocadas para conter avanço de policiais durante a Operação Contenção. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Existe uma solução para o enfrentamento do crime?

José Claudio Sousa Alves e Carolina Grillo acreditam que operações como a Operação Contenção não são a resposta efetiva para a criminalidade. Para eles, a solução reside em atacar o problema em suas raízes: a superação das desigualdades sociais e a criação de oportunidades para os jovens. Eles propõem um combate não-violento e estratégico contra o crime organizado, exemplificado por operações sem confronto armado, como a Operação Carbono Oculto.

Aos que vivem a realidade de comunidades vulneráveis, oferecer educação e inclusão social é a chave para desarmar o crime organizado e abrir novos horizontes. Programas como o Pronasci Juventude são essenciais, oferecendo aos jovens não apenas a chance de escapar da pobreza, mas também os meios para construir um futuro longe do crime.

Em meio à complexidade dos confrontos, permanece a esperança de que um dia, as histórias dessas comunidades possam ser contadas de uma perspectiva de paz e progresso.

Contribuição de Tâmara Freire.



Com informações da Agência Brasil

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