Em meio a lembranças e lágrimas, Maria de Fátima Marinelli, aos 68 anos, se reúne com outras famílias que ainda carregam consigo as cicatrizes de um passado marcado pela repressão e violência da ditadura militar no Brasil. Vestida com a foto de seu amado Nativo da Natividade de Oliveira na camiseta, Maria segura cuidadosamente a certidão de óbito retificada, emitida pelo governo brasileiro, que finalmente admite a morte violenta de Oliveira por um agente do Estado. Este evento, ocorrido nesta quarta-feira, representa não apenas um momento de alívio, mas também um passo crucial na longa jornada por justiça e reconhecimento.
No coração de Brasília, a cerimônia de entrega das certidões de óbito — que agora retratam a verdade sobre as mortes ocorridas durante o regime autoritário — foi um marco significativo. Afinal, como diz Maria, "a morte do meu marido é de uma dor que não sei explicar. Esse atestado é muito especial pra gente porque só nós sabemos o que passamos". No evento, outras 27 famílias também receberam documentos semelhantes, em uma tentativa de restaurar a dignidade perdida há anos atrás.
Por que a retificação das certidões de óbito é importante?
A retificação das certidões de óbito não é apenas um procedimento burocrático; é um reconhecimento formal das atrocidades cometidas durante a ditadura militar. Para famílias como a de Maria, é um passo para finalmente enxugar parte das lágrimas que há décadas umedecem suas vidas. A correção nas causas das mortes, agora vinculadas diretamente à ação do Estado, concede às vítimas um lugar na verdade histórica, enfatizando a responsabilidade estatal em um dos períodos mais sombrios do Brasil.
O que aconteceu com Nativo da Natividade?
Nativo, um ativista fervoroso na década de 70 e líder dos trabalhadores em Carmo do Rio Verde (GO), foi brutalmente assassinado em 1985. De acordo com as investigações da Comissão Nacional da Verdade, a mando do então prefeito da cidade, Roberto Pascoal Liégio, o crime foi executado por um pistoleiro local, simbolizando a repressão feroz contra aqueles que ousavam desafiar o status quo.
Como as famílias superaram os anos que se seguiram?
Com a morte do pai, os filhos de Nativo, Eduardo e Luciane, foram forçados a amadurecer rapidamente. Ainda crianças, enfrentaram privações e a dura realidade de ajudar na roça para sobreviver. Eduardo, hoje um servidor público, lembra com pesar que os desejos do pai, como o deles prosseguirem nos estudos, ficaram suspensos pelo medo e pela necessidade de sobreviver num ambiente hostil. Luciane, costureira, relata ter sido obrigada a deixar a cidade devido à dificuldade de conseguir trabalho devido ao estigma da perseguição.
Qual é o impacto dessa retificação para o futuro?
Além do reconhecimento, a retificação dessas certidões busca lançar luz sobre os erros do passado para evitar que a história se repita. Segundo a ministra Macaé Evaristo, a luta contra o esquecimento e pela manutenção da memória não cabe apenas ao governo, mas é uma missão de toda a sociedade brasileira. Em uma época onde as barreiras parecem intransponíveis, acreditamos que relatos como esses incentivam a defesa dos direitos humanos, para que histórias de luta e resistência não sejam apagadas com o passar do tempo.
No evento, as histórias dos desaparecidos ecoaram nas palavras de Eugênia Gonzaga, presidente da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos: “A anotação da causa da morte, em decorrência de graves violações de direitos humanos geradas pelo Estado brasileiro, é a resposta da democracia contra a opressão". Ela reafirma o propósito de homenagear a coragem daqueles que lutaram por um Brasil justo e igualitário, e enfatiza que novas entregas de certidões estão previstas para manter viva a história e a memória daqueles tempos sombrios.
Enquanto as ações por justiça avançam, os laços de amor e a esperança são renovados entre as famílias. E assim, Maria, junto com outras corajosas famílias, continua a transformar lágrimas em luta, num eterno clamor por justiça e verdade que não pode ser ignorado.
Com informações da Agência Brasil