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BRASIL

Treinos em grupo na praia devolvem liberdade a pessoas trans no Rio

Em meio às águas do Flamengo, no Rio de Janeiro, pares de olhos avistam o majestoso Pão de Açúcar ou o imponente Cristo Redentor. Ali, na vastidão do mar, se encontram aqueles que buscam não apenas uma vista, mas um espaço para redescobrir a si mesmos. Pa

29/01/2026

29/01/2026

Em meio às águas do Flamengo, no Rio de Janeiro, pares de olhos avistam o majestoso Pão de Açúcar ou o imponente Cristo Redentor. Ali, na vastidão do mar, se encontram aqueles que buscam não apenas uma vista, mas um espaço para redescobrir a si mesmos. Para muitos, o desafio de se conectar com o próprio corpo em um ambiente historicamente excludente se transforma em uma mensagem de resistência e superação.

"Quando estamos no mundo, ele nos engole com microviolências cotidianas. Não temos espaço ou tempo para refletir sobre quem somos", compartilha a estudante de história Maya Alves, de 22 anos.

A experiência de Maya transcende a simples prática esportiva. Ao mergulhar na iniciativa do Projeto Aquatrans, ela relata um resgate pessoal e profundo. Criado por Marcelo Silva em 2024, o projeto visa oferecer aulas de natação em águas abertas para pessoas trans, travestis e não-binárias, proporcionando um ambiente seguro para o exercício físico e a ressignificação de espaços urbanos.

O que é o Projeto Aquatrans?

Cerca de 120 participantes mergulham periodicamente no mar, divididos entre os níveis iniciante, intermediário e avançado, ou como likes of anêmonas, água-vivas e golfinhos, como o grupo comumente se refere às turmas. As novas turmas para 2026, abertas para inscrições nos finais de semana, chamam qualquer um que deseje sentir o benefício da prática coletiva.

Para muitos, "ir à praia" ganhou um novo significado após a transição de gênero. Corpóreas experiências, antes consideradas simples, podem se tornar carregadas de olhares de exclusão e gestos de discriminação.

"Antes da transição, a praia era um território comum para muitos de nós. Depois, esse lugar se torna hostil”, diz Maya, agora vice-presidenta do projeto.

A experiência do mar molda uma nova visão de pertencimento, especialmente para aqueles que enfrentam a disforia de gênero.

Treinos em grupo na praia devolvem liberdade a pessoas trans no Rio

Como o Transmaromba ajuda seus participantes?

Perto do Aquatrans, está o Transmaromba, uma academia improvisada ao ar livre com equipamentos de cimento e ferro. Voltado para homens trans, esse espaço se tornou um símbolo de empoderamento por meio da musculação e saúde mental. Kayodê Andrade, um dos fundadores do Transmaromba, afirma que seu objetivo é criar um ambiente comunitário inclusivo e acolhedor que valorize e respeite essas identidades.

Pessoas trans historicamente lutam por saúde e respeito. Em ambientes coletivos, como o do Transmaromba, o simples ato de estar entre iguais gera conforto e bem-estar.

Leonardo Peçanha, pesquisador e educador físico, destaca que homens trans, ao treinar juntos, se sentem livres. "Mesmo quem ainda não fez a mastectomia se sente à vontade para tirar a camisa", observa.

Treinos em grupo na praia devolvem liberdade a pessoas trans no Rio

Qual a importância de espaços seguros na prática esportiva?

A segurança dessas iniciativas reside na criação de ambientes seguros, onde a presença das pessoas não seja questionada. Leonardo Peçanha aborda as dificuldades enfrentadas, como o acesso a banheiros e o uso do nome social, realidades ainda muito presentes em academias convencionais.

Ter educadores preparados, capazes de adaptar exercícios e compreender as metas físicas específicas dos alunos, também é essencial. Isso possibilita que os praticantes alcancem aparências que ressoem com suas identidades.

Para muitos, como Gael Dantas, o Aquatrans representa um resgate da prática esportiva abandonada. "É um local onde posso relaxar e ser eu mesmo", ele compartilha. Já Átila Lino, sushiman, percebe os impactos na sua saúde e condicionamento físico.

Treinos em grupo na praia devolvem liberdade a pessoas trans no Rio

Quais são os benefícios além do físico?

Daniel Mori, psiquiatra, alerta sobre o aumento da ansiedade e do estresse durante a transição de gênero. "A atividade física pode se tornar um pilar de estabilidade", afirma. Além de reforçar a rotina, melhora do sono e equilíbrio emocional são ganhos preciosos.

Atividades em grupo promovem a sensação de pertencimento, baú de apoio em um mundo muitas vezes hostil. Maya Alves, após uma aula no mar, resume: "O corpo relaxou, está à vontade, livre, com vontade de viver, e assim deve permanecer".



Com informações da Agência Brasil

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