Poucos dias após completar três meses, a operação policial mais letal da história do Brasil voltou a ser assunto, especialmente após receber destaque em um alerta da organização não governamental Human Rights Watch. Segundo o documento, o uso irrestrito de força letal pela polícia como estratégia de segurança tem causado ainda mais violência e insegurança no país. A "Operação Contenção", realizada no Rio de Janeiro em 28 de outubro, resultou na morte de 122 pessoas, incluindo cinco policiais.
De janeiro a novembro de 2025, foram registradas 5.920 mortes em ações policiais no Brasil. A Human Rights Watch destacou ainda que, no ano passado, 185 policiais foram mortos e 131 cometeram suicídio, conforme dados do Ministério da Justiça. A especialista em conflitos, crimes e violência Carolina Grillo, professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), critica o empobrecimento do debate sobre segurança pública, que insiste em modelos ineficazes há décadas.
Por que aprofundar-se em modelos questionáveis de segurança pública?
"O que observamos, em alguns estados como Bahia e São Paulo, é uma emulação do modus operandi das polícias do Rio de Janeiro, agravando problemas de segurança já existentes. Isso promove impunidade e legitimações para atuações letais de policiais que já têm relativa autonomia nas ruas", comenta Grillo. Ela ainda afirma: “Em nenhum estado, pode-se afirmar que o governador tenha efetivo controle das forças de segurança.”
Entrevista com Carolina Grillo: a persistência em operações violentas
Agência Brasil: Por que a insistência em operações com alta letalidade?
Carolina Grillo: A complexidade de supor intenções políticas torna difícil responder, mas observamos que operações desse tipo trazem retornos eleitorais. A eficiência dessas operações para o controle do crime é questionável, mas há um empobrecimento do debate público sobre segurança, reforçando velhos métodos como se fossem soluções.
A sensação de 'fazer algo' alimenta a popularidade dos governantes que autorizam essas operações. Ações de inteligência, embora mais eficientes, são pouco espetaculares para a televisão. A imprensa, ao focar nas operações de impacto, pode inadvertidamente validar essa abordagem.
O papel da imprensa e a narrativa das operações
Agência Brasil: As ações de inteligência e sua pouca presença na mídia afetam a percepção pública dessas estratégias?
Carolina Grillo: Há uma crítica à imprensa, especialmente na cobertura da Operação Contenção, que teve uma abordagem tendenciosa, frequentemente alinhada com o discurso do governo. A naturalização de mortes em grandes operações como essa não escandaliza mais a imprensa nacional como o faz na cena internacional.
O papel da segurança pública nas campanhas eleitorais
Agência Brasil: Como o tema da segurança pública entra na pauta eleitoral?
Carolina Grillo: Pesquisas revelaram segurança pública como a principal preocupação dos brasileiros em 2025. O espectro do debate é limitado, com ideias extremas sendo apresentadas. A elaboração de alternativas eficientes, distantes do simples endurecimento penal, é essencial.
Desafios na criação de alternativas de segurança pública
Agência Brasil: Quais as dificuldades na concepção de políticas alternativas?
Carolina Grillo: A tendência de repetir o modelo fluminense, como observado na Bahia e São Paulo, sem um controle institucional robusto, agrava a situação de segurança. Porém, alguns estados como a Bahia começam a criar alternativas, como maior uso de inteligência.
O controle sobre as polícias estaduais é desafiador, mas necessário para que o respaldo institucional não perpetue a impunidade e a violência. Não todas as mortes em operações policiais são abusos da força, mas sem investigação adequada, a verdade não pode ser estabelecida.
Com informações da Agência Brasil