Com frequência, a mídia brasileira lança luz sobre os mais variados casos de violência contra a mulher, mas nada nos prepara para um caso que escancara uma forma de abuso muitas vezes deixada à margem do debate: a violência vicária. Este tipo de violência ocorre quando um homem ataca pessoas próximas a uma mulher como forma de punição ou de infligir dor psicológica a ela. Foi o que chocou recentemente a cidade de Itumbiara, em Goiás.
No dia 11 de fevereiro, Thales Machado, secretário de Governo, em um trágico episódio, disparou contra seus dois filhos antes de tirar a própria vida. O garoto de 12 anos não resistiu. O irmão, de apenas 8 anos, também sucumbiu após ser levado ao hospital em estado crítico. Este doloroso acontecimento nos leva a refletir sobre a extensão e os danos irreparáveis da violência vicária.
O que acontece quando a violência extrapola o corpo da vítima?
Nesse contexto, a secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres, Estela Bezerra, traça um perfil inquietante desta violência que transgride o espaço físico da vítima. Segundo ela, o agressor muitas vezes manipula narrativas para culpar a vítima e desviar a responsabilidade, exemplificado no caso de Itumbiara, onde a narrativa colocada nas redes sociais por Thales citava uma suposta traição da esposa como motivação.
Estela descreve a agressão como uma penalidade máxima para a mãe: "O agressor mata os filhos e orquestra uma narrativa que responsabiliza a mãe. É como se a ela fosse imputada a maior penalidade: ter os filhos executados", afirma.
Por que a violência vicária ainda é um tabuleiro desconhecido?
Embora comum, Estela destaca que esta violência é sistemática e silenciosa, muitas vezes varrida para debaixo do tapete da sociedade. "Vai desde práticas sutis até atos brutais como o assassinato dos próprios filhos", explica. O caso de Itumbiara não é isolado; outro episódio mencionado por Estela envolve um servidor da CGU, que agrediu o filho e a ex-companheira, exemplificando os extremos da violência doméstica onde até animais de estimação são feridos.
Como a sociedade civil e organizações podem combater esta chaga?
O Instituto Maria da Penha destaca a urgência de reconhecer e enfrentar a violência vicária como uma grave violação dos direitos humanos, salientando que "não se trata de conflitos familiares, mas de abuso e violação grave". A ONG sublinha a importância de nomear e divulgar informações de qualidade para combater o ocultamento dessas práticas. “Nomear a violência é o primeiro passo para enfrentá-la", afirmam.
A organização ainda esclarece formas como esta violência se manifesta:
- Ameaças envolvendo os filhos;
- Afastamento forçado;
- Manipulação emocional;
- Falsas acusações;
- Sequestro ou retenção de crianças.
Qual é o papel das instituições jurídicas no enfrentamento destes crimes?
Por sua vez, a Defensoria Pública do Estado de Goiás (DPE-GO) reforça que atos de violência não devem ser silenciados sob qualquer pretexto. "Ela não tem culpa", afirmou categórica, ressaltando a importância de sempre responsabilizar o agressor, independentemente das circunstâncias narrativas construídas ao redor do ato.
Em campanhas como “Ela Não tem Culpa - 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher”, a DPE-GO busca desassociar as responsabilidades da vítima e promover a reflexão sobre a responsabilidade de quem perpetra a violência.
Com informações da Agência Brasil