O aclamado filme “São Paulo Sociedade Anônima”, um marco do cinema brasileiro, está novamente em cena. Celebra-se o 60º aniversário do seu lançamento com uma versão restaurada em 4K. Sob a direção de Luiz Sérgio Person, este longa-metragem capta as transformações sociais e econômicas na maior metrópole do Brasil. Mas por que essa obra continua a nos fascinar mesmo após seis décadas?
A história se desenrola entre o final dos anos 1950 e o início dos anos 1960, vista através dos olhos de Carlos, interpretado por Walmor Chagas. Carlos é um operário de uma fábrica de autopeças que, em meio ao progresso profissional, se vê frustrado com a rotina automatizada e sem alma, uma metáfora para o crescimento industrial da época.
Qual é o impacto das grandes cidades sobre os indivíduos?
Marina Person, filha de Luiz Sérgio, reflete sobre a influência da expansão da indústria automobilística no Brasil na época. Ela esclarece como a urbanização esmagou a identidade individual, transformando pessoas em meras peças de uma engrenagem massiva. Uma cena memorável retrata Carlos andando por um viaduto, murmurando para si: "Recomeçar, recomeçar, mil vezes recomeçar, mil vezes tentar ser um homem”, mostrando sua luta interna contra o cotidiano sufocante.
Por que a restauração de clássicos ainda é relevante?
“Tudo passaria depressa, como tudo que se passa em São Paulo”, reflete Carlos, encapsulando o preço do desenvolvimento desenfreado. A restauração não só revive a obra como reforça temas atuais, revelando como a sociedade molda e muitas vezes oprime os indivíduos. O filme, em preto e branco, se inspira em Tempos Modernos de Charles Chaplin e traz aspectos da Nouvelle Vague francesa e do neorrealismo italiano. Marina Person destaca a modernidade narrativa e visual do filme, que faz tudo parecer um "túnel do tempo" para os anos 60 em São Paulo.
Como "São Paulo Sociedade Anônima" se torna um túnel do tempo?
Filmado de forma ímpar para a época, o longa usou câmera manual e quebras da quarta parede, onde personagens interagem diretamente com o público. Os planos longos capturam a vida cotidiana nas ruas, retrocedendo e avançando na narrativa. Elementos como os garotos nos bondes e cidadãos transitando pela Avenida Ipiranga transportam o espectador para outra era.
Luiz Sérgio Person, que nos deixou há 50 anos, estaria completando 90 anos se vivo. Este clássico, o seu primeiro longa-metragem, é agora resgatado e renovado para novas gerações através do projeto Sessão Vitrine Petrobras. A versão restaurada teve sua estreia no Festival Il Cinema Ritrovato, na Itália, onde clássicos filmados em película são celebrados. O processo de restauração realizado em um laboratório italiano aproveitou o negativo original, o que preservou os detalhes do filme.
*Com colaboração de Maura Martins
Com informações da Agência Brasil