Seis em cada dez brasileiros que recebiam o Bolsa Família em 2014 conseguiram deixar o programa assistencial até 2024. Essa revelação intrigante faz parte do estudo Filhos do Bolsa Família, apresentado pela Fundação Getulio Vargas (FGV). Você está curioso para entender o que levou essas pessoas a deixar o programa e como isso afeta o Brasil de hoje?
Em colaboração com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), a pesquisa também destaca uma surpresa: os adolescentes lideraram a saída do programa. É um sinal de que a mobilidade social está de fato acontecendo? Vamos descobrir a seguir.
Por que tantos jovens deixaram o Bolsa Família?
Enquanto a média geral de saída do Bolsa Família entre os beneficiários foi de 60,68%, os jovens de 15 a 17 anos se destacaram com uma taxa impressionante de 71,25%. Ou seja, de cada dez adolescentes, sete não dependiam mais da transferência de renda após dez anos.
Outra faixa etária que apresentou números significativos foi a de 11 a 14 anos, com 68,80% deixando o programa. Em contraste, crianças com até 4 anos tinham uma taxa muito menor, de 41,26%. Esse dado nos leva a perguntar: o que ajuda esses jovens a se desligarem do programa?
O papel do Bolsa Família na mobilidade social
O professor Valdemar Rodrigues de Pinho Neto, responsável pelo estudo, não vê o Bolsa Família apenas como uma ajuda temporária. "O programa também promove a mobilidade social," destaca ele. Com condicionalidades que exigem saúde e educação das famílias, o Bolsa Família visa viabilizar a ascensão social através do investimento em capital humano. Mas será que essa fórmula está realmente funcionando?
Para muitos, a resposta é sim. Neto menciona que, com recursos escassos, ter pessoas saindo do programa é um indicativo de sustentabilidade. "Filhos do Bolsa Família não necessariamente estarão no programa no futuro," reflete ele.
Saindo do programa, mas não desprotegidos
Saíram do Bolsa Família, mas o que aconteceu com eles? No grupo que tinha 15 a 17 anos em 2014, um expressivo 28,4% conseguiu um emprego formal dez anos depois. Além disso, mais de metade, 52,67%, já não dependia do Cadastro Único, utilizado para participar de programas sociais.
Isso tudo foi compilado com informações do mercado de trabalho formal via Relação Anual de Informações Sociais (Rais), uma base de dados fundamental para entender essa dinâmica de saída.
O ambiente socioeconômico faz a diferença?
O estudo apontou que o contexto em que os beneficiários vivem influencia muito na saída do programa. Veja esses dados:
- Em áreas urbanas, a taxa de saída de jovens entre 6 e 17 anos foi de 67%, superior à das áreas rurais, que foi de 55%.
- Famílias cujo representante trabalhava formalmente tiveram uma taxa de saída de 79,40%, comparada a 57,51% de famílias sem carteira assinada.
- Educação também fez diferença: 70% saíram do programa quando o responsável tinha ensino médio, em relação a 65,31% com ensino fundamental.
"Pais com mais educação rompem a pobreza intergeracional. Filhos de pais mais educados saem mais fácil do programa", afirma Neto.
Um começo e não um fim
O ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, se mostra otimista com os números, sustentando que o Bolsa Família é "um começo" para muitos. Ele destaca a importância de combater a fome como primeiro passo para progresso social, uma ideia que não deveria escapar do radar de quem pensa em infraestrutura social.
"É difícil estudar ou trabalhar se você está com fome. Combater a fome é crucial para qualquer avanço", justifica ele.
Desafios e tendências para o futuro
O estudo da FGV revelou que, entre 2023 e 2025, um terço dos beneficiários já havia deixado o novo Bolsa Família, com uma média de entrada de famílias menor que a de saída.
Essa tendência agressiva de saída parece ser um presságio para o que o futuro reserva, à medida que as "gerações" do programa se sucedem. "A segunda geração foi melhor que a primeira, e a expectativa é que a terceira seja ainda melhor", comenta Valdemar Pinho Neto.
Estímulo e autonomia
Nessa nova versão do programa, duas características são vistas com destaque: a proteção que permite um período de adaptação ao conseguir emprego, e o Programa Acredita, que oferece microcrédito.
"Essas mudanças tornam o processo de saída do programa menos abrupto," afirma o pesquisador, promovendo assim uma transição mais suave para os beneficiários do Bolsa Família.
O critério inicial para um indivíduo ser aceito no Bolsa Família é ter uma renda familiar per capita de até R$ 218. Com um benefício que varia, com base de R$ 600, o programa chegou a 18,65 milhões de famílias em novembro, somando um custo de R$ 12,69 bilhões.
Com informações da Agência Brasil